Conheça a Musicografia Braille

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Música além da visão
4 de abril de 2016

Conheça a Musicografia Braille

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Como é que um deficiente visual lê uma partitura musical? Ele é capaz de tocar igual a um vidente? A musicografia Braille dá condições para que isto se torne realidade. Conheça como evoluiu esta maravilhosa ferramenta de leitura e escrita.

Desde os primórdios da Humanidade o homem sente a necessidade de se comunicar de diferentes maneiras. A maior conquista neste sentido foi a escrita, que foi evoluindo a medida em que o homem também evoluía; a leitura surge como conseqüência da escrita, pois era preciso interpretar os escritos.

Somente no século XVIII, mais precisamente em 1784, Valentin Hauy funda em Paris uma escola para instruir os cegos e prepará-los para viver em sociedade com mais liberdade. Para que o alfabeto pudesse ser “lido” pelos deficientes visuais, ele adaptou-o em relevo para que as letras fossem perceptíveis pelos dedos. Ele foi o pioneiro em defender a tese de que a educação dos cegos não deveria diferenciar-se da dos videntes.

Na mesma época, Charles Barbier faz uso de um código de pontos usado para tornar secretas as mensagens militares que podia ser tateado e entendido pelo destinatário. Esta escrita chamava-se “escrita noturna sem lápis e sem tinta”, pois era feita com o auxílio de um estilete e podia ser decifrada mesmo no escuro, contando os pontos com os dedos.

Em 1810 (aos 10 anos de idade), Louis Braille, um garoto humilde que perdeu a visão por volta dos três anos, ingressa na instituição de Valentin Hauy e conhece o código de Barbier. Garoto inteligente e cheio de força de vontade, começa a investigar a possibilidade dos cegos se colocarem em pé de igualdade com os videntes e poderem participar do inesgotável mundo da cultura. O conhecimento intelectual, sob todas as suas formas (filosofia, psicologia, teologia, matemática, história, música…) tornou-se mais acessível aos cegos. Em 1825, aos 16 anos, a sua pesquisa sobre os sinais que seriam usados na escrita  estava quase concluída. Somente em 1837 o seu trabalho é editado com o nome “processo para escrever as palavras, a música e o cantochão, por meio de pontos, para uso dos cegos e dispostos para eles”. Mais tarde este sistema de escrita receberia o seu nome “Sistema Braille”. O Sistema é constituído por 7 pontos em duas filas verticais de três, num total de 64 sinais. Estes sinais não excedem o campo táctil e podem ser identificados com rapidez, pois devido à sua forma, adaptam-se exatamente à polpa do dedo. Nos leitores mais experientes o único movimento que se observa é da esquerda para a direita, ao longo das linhas.  Este processo de leitura e escrita é usado em todo o mundo, se adapta a todas as necessidades dos seus usuários. Pode ser usado em qualquer língua e em qualquer grafia: matemática, física, música, etc

Com os 64 símbolos é possível representar toda a notação musical a tinta; as letras funcionam como símbolos musicais, precedidas de prefixos específicos. Pode-se indicar as claves, os compassos, os andamentos, a dinâmica, os intervalos, a forma de escrita para os diferentes instrumentos, além de muitos outros sinais. Através desta técnica, um texto musical de qualquer complexidade pode ser transcrito para a forma tátil e facilmente assimilado pelos deficientes visuais. Ela dá ao deficiente visual a oportunidade de tocar uma peça musical exatamente com o compositor a idealizou. Por que então privar o deficiente visual desta maravilhosa ferramenta de leitura e escrita? Todos os deficientes visuais deveriam usar habitualmente este sistema para poderem usufruir também da musicografia. Sendo a música importante nas mais diferentes idades e situações da vida, não poderia ser diferente com os deficientes visuais. E, se a musicografia Braille dá a oportunidade ao cego de participar do maravilhoso mundo da música, façamos uso dela.

Mônica Ajej

Psicóloga, pedagoga e educadora musical.

Diretora do Conservatório Musical do Butantã

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