Música além da visão

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Música além da visão

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Cláudia nasceu linda, de olhos azuis e era a alegria da família. Aos cinco anos de idade contraiu meningite e perdeu a visão. Apesar do choque, seus pais não se deixaram abater e durante todo o desenvolvimento de Cláudia fizeram de tudo para que ela se sentisse uma pessoa normal, inserida na sociedade e fazendo o que toda criança faz.

Conheci Cláudia em 1988, aos 19 anos de idade. Sua mãe me contou toda sua história e disse que o maior desejo de sua filha era terminar os estudos de piano que ela havia iniciado com uma professora particular. Na época, não havia material em Braille para piano; o máximo que conseguíamos eram livros até o terceiro ou quarto ano na Fundação Dorina Nowill, que eram caríssimos, pois a escrita da musicografia Braille é muito mais extensa do que a escrita convencional.

Confesso que nunca havia trabalhado com uma aluna deficiente visual e fiquei sensibilizada pela força de vontade de Cláudia e, principalmente, pela disposição de sua mãe a ajudar no que fosse preciso, inclusive na elaboração de novas partituras. A partir daquele dia um mundo de possibilidades se abriu para mim e para a minha mais nova aluna. Começamos a escrever estudos de Bach, prelúdios e noturnos de Chopin, sonatas de Beethoven, ou seja, todo material que eu usava para os alunos videntes eram usados para a Cláudia, sem poupá-la de nenhuma dificuldade. Afinal de contas ela queria se formar em piano erudito e deveria passar por todos os compositores exigidos no plano de curso do Conservatório.

Muitas dessas partituras foram feitas da seguinte forma: eu escrevia em tinta tudo o que estava na partitura e em casa sua mãe ditava para ela que, imediatamente, usando sua máquina de escrever, traduzia para a musicografia Braille. Era um trabalho que exigia muitas horas tanto da minha parte quanto da dela, mas que ao final, ouvindo-a tocar, era gratificante.

Cláudia participava de todas as apresentações de fim de ano, sempre tocando para um grande público peças de extrema dificuldade técnica. Os outros alunos a tinham como referência, pois ela conseguia tocar com destreza e precisão.

É muito importante que o deficiente visual conheça o Braille para depois aprender a musicografia desse método. No Conservatório, nós optamos por essa forma de escrita musical, pois tocar de ouvido ou repetir o que o professor toca tira do aluno a possibilidade de conhecer a partitura como ela realmente foi escrita pelo compositor, além do que dá muito mais prazer.

Em 1998 ela recebeu o tão esperado diploma, graças a sua força de vontade, perseverança, e, principalmente ao apoio da família que sempre esteve presente auxiliando, mas também não a excluindo da sociedade, pelo contrário, dando-lhe oportunidade de realizar o seu grande sonho.

 

 

Mônica Ajej

Psicóloga, Pedagoga e Educadora Musical.

Diretora do Conservatório Musical do Butantã

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